A Era de Ouro dos CLUBES SOCIAIS e dos CONJUNTOS MUSICAIS

Autor: A. C. Rocha Sousa. *WhatsApp Image 2026 03 03 at 12.54.25​Quem via de fora as luzes coloridas e os casais dançando ao som dos conjuntos musicais, nos clubes sociais de Teresina e no interior do Piauí, talvez não alcançasse a complexidade técnica que pulsava no palco daqueles salões. Como músico, hoje olho para trás e percebo que aquelas festas e tertúlias eram, na verdade, grandes concertos de música popular disfarçados de baile.

​Naquela Teresina da Rádio Pioneira, o som que saía do programa "Seu Gosto na Berlinda" não era apenas entretenimento; era uma aula de arranjo e execução. O radialista Roque Moreira anunciava os bailes, mas quem ditava o padrão de qualidade eram os conjuntos. Chamar de "banda" parece pouco para conjuntos como Os Cartolas, Os Geniais de Amarante, Os Bem-Bens da Paraíba, Os Dragões, Os Metralhas, Sambrasa, Alta Tensão, Impacto Musical, Disparo 2000, Hermogens Som Pop e Os Seis Maranhenses.WhatsApp Image 2026 03 03 at 12.19.40​Eles eram operários da perfeição. No palco, as seções de base e metais precisavam ter a precisão de um relógio suíço; o baixo e a bateria tinham que sustentar o "suingue" por horas a fio, sem o auxílio de sequenciadores ou metrônomos digitais. Era a música orgânica, feita no braço, na raça e no ouvido. Grupos como Sambrasa — composto por músicos vindos do Ceará com aquela bagagem de excelência nordestina — traziam um rigor técnico que influenciava todos os músicos locais.

​Para nós, que profissionalmente respiramos música, o respeito que esses conjuntos impunham em todo o Nordeste não era por acaso. Eram recordistas de público porque entregavam fidelidade sonora. Se tocavam um sucesso internacional ou um clássico regional, faziam-no com um respeito absoluto ao som, aos timbres, e muitas vezes adaptando arranjos complexos de Big Bands para a realidade dos nossos clubes sociais.

​O rádio era o elo. De um lado, o locutor preparava o espírito do ouvinte; do outro, os músicos poliam o brilho do repertório. Era um tempo em que a qualidade musical era o maior marketing que um grupo poderia ter. As famílias e a juventude que lotavam as festas em Teresina, no interior do Piauí e do Maranhão, sabiam que, além de diversão, estavam consumindo arte de primeira linha.

​Hoje, ao escrever essas memórias, sinto que o eco daqueles bailes ainda ressoa na minha forma de pensar música. O "Seu Gosto na Berlinda" passou, os clubes mudaram, mas a lição de profissionalismo daqueles conjuntos de baile permanece como o alicerce de quem sabe que, na música, o detalhe é o que separa o comum do inesquecível.

PS: O programa radiofônico "Seu Gosto na Berlinda", apresentado por Roque Moreira na Rádio Pioneira de Teresina, foi um ícone da comunicação regional. Focado na interatividade, durou quase três décadas tocando sucessos e anunciando festas nos clubes sociais do Piauí e Maranhão.

* Sobre o Autor:

A.​ C. Rocha Sousa é músico, militar, regente, arranjador e educador com formação em música e história. Tem uma trajetória de décadas dedicada à formação musical em Teresina e municípios piauiense. Possui longa experiência em gestão e coordenação de projetos culturais ligados à música, às bandas e orquestras. Como observador atento da capital piauiense, onde reside há 47 anos, dedica-se a registrar a memória, a cultura e os desafios urbanos da cidade através das palavras e da arte musical.